Todo texto que publico aqui passa por uma revisão em que eu corto sempre as mesmas coisas. A lista nasceu de observação: depois de alguns artigos, ficou claro que a IA repete os mesmos vícios, e que são justamente eles que fazem o leitor perceber que ninguém pensou naquilo.
Antes do processo, vale entender o que está em jogo do lado do Google, porque esse ponto costuma ser mal explicado nos vídeos do assunto.
O que o Google diz sobre texto feito com IA
A documentação do Google é direta: usar IA para pesquisar um tema e estruturar conteúdo original pode ser útil. O que viola a política é usar essas ferramentas para gerar muitas páginas sem acrescentar valor ao usuário.
A regra que pega isso se chama abuso de conteúdo em escala, e foi redefinida em março de 2024. O detalhe importante é que ela cobre produção em massa de material sem valor por qualquer método, com automação, com gente escrevendo ou com os dois juntos. O método de produção não é o critério.
Ou seja, publicar sessenta artigos gerados num fim de semana e jogados no ar sem revisão é o comportamento que a política descreve. Usar IA como apoio e revisar cada texto fica fora disso.
Os padrões que entregam o texto automático
Nenhum desses itens é erro de português. São marcas de estilo que aparecem com frequência estranha em texto gerado, e que o leitor reconhece mesmo sem saber nomear.
Travessão em excesso. Aparece em praticamente toda frase longa. Em português, vírgula, dois pontos ou ponto final resolvem quase sempre.
A construção simétrica. Aquela estrutura de negar uma coisa para afirmar outra, duas ou três vezes no mesmo texto. Uma vez passa. Repetida, vira tique.
Abertura que anuncia. Parágrafo inicial explicando o que o artigo vai explicar. Corte e comece pelo assunto.
Conclusão que repete. Último bloco resumindo tudo que já foi dito, sem acrescentar nada. Termine com a informação mais útil, com o próximo passo ou com uma observação sua.
Lista no lugar de explicação. Seis itens de três palavras cada onde cabia um parágrafo explicando a lógica. Lista serve para itens paralelos de verdade, como checklist e etapas.
Parágrafos do mesmo tamanho. Texto humano tem ritmo irregular. Frase curta depois de parágrafo longo muda a respiração da leitura.
Adjetivo empilhado. "Ferramenta poderosa, versátil e intuitiva" diz menos que uma frase mostrando o que ela faz.
Vocabulário de abertura genérico. Expressões como "no cenário atual" e "cada vez mais" costumam abrir parágrafos vazios.
O que só você consegue colocar
Tirar os vícios melhora o texto. O que faz diferença de verdade é acrescentar aquilo que a IA não tem como saber.
Números da sua operação. Não a média do mercado, e sim o valor que você pagou, a taxa que te cobraram, o tempo que a coisa levou.
Um erro seu. É o tipo de informação que ninguém publica e que todo leitor agradece, porque economiza o erro dele.
Uma decisão com o motivo. Você escolheu a ferramenta A em vez da B. Por quê? O que te incomodou na outra?
Uma opinião que arrisca algo. Texto que agrada todo mundo não é lembrado por ninguém. Se você acha que uma prática popular do seu nicho está errada, diga e explique.
Quando esses quatro elementos estão presentes, o texto deixa de ser intercambiável com qualquer outro sobre o mesmo assunto.
Minhas três passagens
Não tento resolver tudo de uma vez. Faço três leituras com objetivos diferentes.
Primeira: estrutura e fatos. A ordem dos tópicos faz sentido? Toda afirmação com número tem fonte, ou foi inventada pelo modelo? Essa passagem é a mais importante, porque dado errado em artigo publicado é o tipo de problema que volta.
Segunda: os cortes. Passo a lista de vícios acima e elimino. Normalmente o texto encolhe entre dez e vinte por cento, e melhora.
Terceira: leitura em voz alta. É o teste que mais funciona e o que menos gente faz. Frase que você não falaria em voz alta para um colega está errada para o blog. Travamento na leitura indica pontuação ruim ou frase longa demais.
O que não fazer
Existe um atalho popular que é pedir para a IA "humanizar" o texto. O resultado costuma trocar palavras comuns por sinônimos rebuscados e deixar o texto pior, além de manter todos os problemas de estrutura.
Também não vale confiar em detector de IA. Essas ferramentas erram nas duas direções e acusam texto humano com frequência. O critério que importa é se o texto entrega algo útil a quem chegou nele, e isso quem avalia é você.
A conclusão prática depois de alguns meses fazendo isso: a IA resolve bem a página em branco e a estruturação, o que economiza horas por artigo. O que ela não faz é ter passado pela experiência que torna o texto diferente dos outros mil sobre o mesmo tema. Essa parte continua sendo trabalho de quem publica, e é ela que sustenta o blog a longo prazo.



